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28 janeiro 2008

A comunicação social e os seus agentes

Excelente este artigo do sociólogo António Barreto! Os meios de comunicação social, os agentes de imagem, as agências de comunicação, a sua persuasão sobre políticos e mesmo sobre a sociedade civil. Vai um pouco de encontro aquilo que aqui falei em o Tempo das Imagens.

TÊM VÁRIAS DESIGNAÇÕES. Assessores. Conselheiros. Encarregados de relações com a imprensa. Agentes de comunicação. Ou, depois do choque tecnológico, Press officers e Media consultants. Sem falar nos conselheiros de imagem. Povoam os gabinetes dos ministros, dos secretários de Estado, dos directores gerais, dos presidentes e dos gestores. Vivem agarrados aos telemóveis, aos BlackBerries, às Palms e aos computadores. Falam todos os dias com os administradores, directores e jornalistas das televisões, das rádios e dos jornais. Dão, escolhem, programam e escondem notícias. Mostram aos políticos e aos gestores o que é do interesse deles. Planificam a informação. Calculam os efeitos e contam as referências feitas na imprensa. Tratam da imagem, compram camisas para os seus mestres, estudam-lhe as gravatas, preparam momentos espontâneos, formulam desabafos, encenam incidentes e organizam acasos. Revelam a intimidade que se pode ou deve revelar. Calculam os efeitos negativos de uma decisão sobre os impostos, que articulam com as consequências positivas de um aumento de pensões. A fim de contrabalançar, colocam o anúncio de Alcochete logo a seguir ao do referendo europeu. Fazem uma planificação minuciosa das inaugurações. Escrevem notícias com todos os requisitos profissionais, de modo a facilitar a vida aos jornalistas. Mentem de vez em quando. Exageram quase sempre. Organizam fugas de imprensa quando convém. Protestam contra as fugas de imprensa quando fica bem. Recompensam, com informação, os que se conformam. Castigam, com silêncio, os que prevaricaram. São as fontes. Que inundam ou secam.

OS JORNAIS PARECEM-SE UNS COM OS OUTROS. As notícias são quase iguais. As agendas das redacções são gémeas. Salva-se, desta uniformidade, aqui e ali, quem assina o que escreve. Os noticiários das televisões têm agendas iguais. E alinhamentos de notícias também. Os directos, grande vício da televisão portuguesa, são iguais em todos os canais. Cada vez mais, a informação está previamente organizada, não pelas redacções, não pelos jornalistas, mas pelos agentes e pelos assessores. Quem tem informação manda em quem investiga, escreve e transmite. Grande parte da informação é encenada e manipulada, de acordo com as conveniências. Há informação reservada para melhores momentos, informação programada para dramatizar, informação inventada para divertir e informação acelerada para consolar. Isto acontece há anos. Em Portugal e no mundo inteiro. Todos os anos, a situação piora. Com Sócrates, refinou. O poderio das organizações de comunicação é avassalador. A opinião pública não tem meios para escolher e resistir. Só a independência dos jornalistas poderia fazer frente a este domínio inquietante. Mas esta é um bem raro. Até porque os empregos na informação são cada vez mais precários.

A RECENTE POLÉMICA SOBRE AS AGÊNCIAS DE COMUNICAÇÃO, novo episódio numa longa série, mostrou esta actividade no seu pior. As mesmas agências comunicam a favor dos adversários, da política e da economia, da polícia e do ladrão, do governo e da imprensa. Do atirador e do alvo, como disse Pacheco Pereira. Até a Entidade Reguladora para a Comunicação, sem ver os efeitos nefastos, achou por bem ter uma agência a tratar da sua informação. O governo tem a sua. Luís Filipe Menezes também: em vez de denunciar a prática do governo, quis imitá-lo. Foi preciso Santana Lopes, em momento inspirado, opor-se a este despotismo: “O modo e o conteúdo da comunicação fazem parte do domínio da liberdade absolutamente inalienável de cada deputado”.

LUÍS MARQUES, JORNALISTA HÁ VÁRIAS DÉCADAS e com experiência da redacção, da direcção e da gestão da informação, em jornais e na televisão, fez há poucos anos um pequeno estudo sobre as “agendas” de informação. Chegou a resultados surpreendentes. Contando apenas os grandes órgãos de informação generalistas e nacionais, com exclusão das secções mundanas e outras, havia em Portugal cerca de 1.500 profissionais. Para os alimentar de informações, os assessores, as agências de comunicação e outros somavam quase 3.000. Quer dizer, por cada jornalista em actividade na informação política e económica, dois profissionais preparavam as agendas e as notícias. É esta gente que inunda as redacções com “factos”, “eventos”, “oportunidades” e “situações”. Qualquer redacção tem dificuldade em resistir-lhe. Se, às 20.00 horas, o Primeiro-ministro sai de um lar de idosos, entra numa creche ou produz uma declaração espontânea, como pode uma redacção decidir não estar presente? É este exército o responsável por grande parte das “entradas” que, durante a manhã, enchem as agendas das redacções. Num grande canal de televisão, essas entradas podem hoje chegar às 1.000 por dia, enquanto eram cerca de 100 há quinze ou vinte anos. Na agenda diária da redacção de um canal de televisão, perto de um terço das entradas (mais de trezentas...) é feito directamente pelas agências de comunicação e pelos assessores dos gabinetes e das instituições. Mais ainda, é aquela brigada que, muitas vezes, sobretudo na informação económica, redige as notícias. Nas redacções, povoadas hoje por jovens estagiários e inexperientes, mas também por seniores preguiçosos, publicar directamente as notícias assim preparadas, ainda por cima por jornalistas e antigos jornalistas treinados, é a solução mais simples. Por isso, é frequente vermos, sem menção de publicidade, notícias económicas absolutamente iguais em vários jornais.

HÁ QUEM PENSE QUE É ISTO A MODERNIDADE. A informação racional da época contemporânea. O sinal da eficácia. O instrumento da transparência. Mas desenganem-se os crédulos. O objectivo dos assessores e das agências de comunicação é sempre o de defender os interesses do autor da informação, nunca do destinatário, do cidadão. A única preocupação do agente é a de vender o mais possível, nas melhores condições, bens ou ideias, mercadorias ou decisões. Os agentes de comunicação não defendem os interesses dos compradores, dos consumidores ou dos espectadores, mas tão só dos vendedores, dos produtores e dos autores. Apesar de pagos pelos eleitores, servem para defender os eleitos. Este é o mundo em que vivemos: a mentira é uma arte. Esta é a nossa sociedade: o cenário substitui a realidade. Esta é a cultura em vigor: o engano tem mais valor do que a verdade.

Um mundo de marionetas

O poder total só pode ser conseguido e conservado num mundo de reflexos condicionados de marionetas sem o mais leve traço de espontaneidade.
Hannah Arendt, O Sistema Totalitário (1978)


Será que hoje ainda podemos falar num poder que é exercido num mundo de marionetas? O poder totalitário exercido, por exemplo, por Hitler e Estaline de que nos fala Arendt na sua obra O Sistema Totalitário poderá hoje ter as suas implicações? Até que ponto somos nós marionetas daqueles que nos governam e ditam aquilo que podemos ou não fazer? Até que ponto a ASAE faz dos portugueses marionetas? Até que ponto os meios de comunicação social fazem de nós marionetas ao nos darem a sua visão dos acontecimentos que chegam de todo o mundo e modelam os nossos comportamentos e modelam a visão que vamos ter desses acontecimentos? Quem somos nós? Agimos condicionados? É-nos dada espontaneidade total nos nossos actos?

16 janeiro 2008

O desinteresse pela política

As afrontosas injustiças sociais conduzem as pessoas a um cada vez maior afastamento do acto cívico e ao desprezo repugnante pelos políticos.

Baptista Bastos, no Diário de Notícias

06 janeiro 2008

O Tempo das Imagens

Ontem li esta frase de Pacheco Pereira no sítio do jornal O Público:

"Muito do que ficará serão imagens, porque este tempo é um tempo de imagens."

Embora eu não saiba o contexto do assunto em que a frase está inserida, a frase por si só leva-me a concordar com este senhor.
Se antes a comunicação era feita através da palavra e presentemente, agora o objecto é a imagem e a transmissão de imagens.
No que concerne à política associada à imagem, surgem dois efeitos:
- Realça-se o carácter teatral do poder, tudo é encenação na vida política. Os agentes têm cada vez mais espaço e menos bastidores. Com esta capacidade de captação de imagem os políticos são-no em "full-time", estão sempre em cena, não há tanto bastidores. Mesmo a vida privada dos políticos, e outras figuras públicas, é controlada e vigiada.
- A política acaba por tornar-se numa avalanche de imagens. Tudo é visto e mostrado. Em nome da transparência há cada vez mais exigência que assim seja e a imagem toma o lugar da palavra. Na vida política, a argumentação e a reflexão tendem a ser substituídas por efeitos especiais e a vida política torna-se uma sucessão de imagens.

O que faz a vida política é menos marcado pela agenda do parlamento e mais marcado pela agenda que os meios de comunicação social definem. Tal acaba por originar uma banalização do processo democrático levando ao desinteresse perante certos factos. Esta avalanche de imagens permanente, esta inflacção de imagens e notícias acaba por ser contraproducente para a democracia por conduz à saturação e à indiferença.
Temos hoje, em lugar do cidadão, o telespectador. O telespectador cansado por saber que é dada voz sempre às mesmas pessoas, cansado por perceber a relação entre o poder e os meios de comunicação.

Antigamente, a realidade era aquilo que se passava na nossa aldeia. Hoje chega-nos a realidade de todo o mundo, há um eco da realidade. Chega-nos a tele-realidade dada pelos meios de comunicação.
Aquilo que os meios de comunicação difundem é que é considerada a realidade. Porque quando vemos uma imagem temos dificuldade em rebatê-la, considerá-la falsa, porque estamos a ver essa imagem à nossa frente. As imagens fazem a nossa realidade, é difícil impormo-nos a uma imagem porque ela tem um grande poder de persuasão.

O antropólogo e sociólogo, G. Balandier diz-nos:
O mundo reduz-se cada vez mais ao seu próprio espectáculo que a teletemática começa a transmitir. O poder dispõe de meios permanentes e de uma força já mais atingida anteriormente de elaborar a sua própria formação. O Homem deste fim de século (século XX) tem menos acesso a uma realidade do que a uma tele-realidade.

27 dezembro 2007

Salazar e Portugal...

“Salazar pôs isto na ordem e agora já não sabemos fazer a democracia outra vez. Estamos estrangulados. Mais: se não é a UE, há muitos anos que não vivíamos em democracia. (...) O país prosperou sempre mais com regimes de autoridade.”

Pedro Arroja, Visão (Tirado de O Público)

31 outubro 2007

Salazar o homem...


Durante 35 anos, Maria da Conceição Rita privou com António de Oliveira Salazar. Nenhum laço familiar os unia, mas com apenas seis anos, Micas, como Salazar carinhosamente a chamava, foi viver para a residência do «Senhor Doutor», por intermédio da sua familiar (por afinidade) Maria de Jesus Freire, a governanta de Salazar. Na primeira pessoa, a pupila de Salazar conta-nos os gostos gastronómicos do seu «protector», descreve o seu quotidiano até agora desconhecido, evoca as fábulas que o Presidente do Conselho lhe contava ao adormecer, recorda tanto as lições de tabuada e História como as raras confissões políticas que ele lhe fazia em passeios nocturnos pelos jardins de São Bento, explica a forma como a economia doméstica de São Bento era dirigida.

18 agosto 2007

Os regimes totalitários - A submissão das massas

Qualquer regime totalitário actua sempre sobre sociedades de massa, sociedades dos indivíduos atomizados, sem capacidade de se integrarem numa comunidade, isolados. Esta atomização dos indivíduos resulta dos sentimentos de inutilidade que os percorrem, da sua falta de convicção e luta política, do seu desinteresse generalizado no que diz respeito a todos os campos de vida social. É este o ideal-tipo do Homem de massa. É sobre estes indivíduos que actuam os regimes totalitários, de modo a organizá-los e a conseguir deles um apoio e lealdade incondicionais, uma adesão emocional (nunca racional).

As ditaduras de Hitler e Estaline mostram claramente o facto de que o isolamento de indivíduos atomizados não apenas constitui a base para o domínio totalitário, mas é elevado a efeito de modo a atingir o próprio topo da estrutura.
Hannah Arendt
Assim, as massas não congregam os indivíduos em virtude de um interesse comum, mas sim de uma condição comum: quando as pessoas não são capazes de se integrar, estão desenraizadas, logo têm uma condição comum, os líderes vão aproveitar essa condição para mobilizar as massas. Estas têm para com ele uma lealdade incondicional que a certa altura se torna independente do conteúdo ideológico do discurso do líder; independentemente disso a massa vai segui-lo. Existe entre o líder e as massas uma relação de identidade total, de total identificação. Os indivíduos depositam toda a sua esperança no líder.

02 julho 2007

Relação dos magistrados portugueses com as novas teconlogias da informação e da comunicação (TIC)

No geral, pode dizer-se que os magistrados têm uma relação ambígua com a ciência forense
e as tecnologias da informação. Por uma lado, recorrem cada vez mais a perícias científicas como provas em processos judiciais - nos casos de investigação de paternidade e maternidade, por exemplo- demonstrando, segundo a socióloga (Helena Machado, Universidade do Minho), uma «reverência e um respeito acrítico pela ciência e pelos cientistas»
(...)
Por outro lado, os magistrados dividem-se claramente no que se refere às TIC. Os adeptos da informatização vêem-nas como condição de modernização dos tribunais. Os outros, críticos, tradicionalistas ou «elitistas», temem que o usos das ferramentas informáticas possa «desvirtuar as finalidades mais nobres da administração da justiça ou destruir a especificidade do modo de funcionamento dos tribunais».


O que pode explicar esta aparente ambiguidade na utilização da ciência e da tecnologia? Para Helena Machado, a justificação pode ser encontrada no tipo de relações de poder muito próprias do universo da justiça portuguesa. Ou seja, o recurso à prova pericial não parece beliscar o estatuto e o poder dos magistrados e juízes, sendo visto como um contributo credível da comunidade científica que oferece ao juíz mais um elemento de prova - entre outros, testemunhais e documentais - no apoio à tomada de decisão judicial. O mesmo não se pode dizer das TIC, sentidas por alguns como uma possível ameaça às relações fortemente hierarquizadas dos tribunais, que obrigaria provavelmente a uma maior dependência dos magistrados face ao pessoal informático.


Tal como na vida só a confiança pode catalisar empatia e adesão, também na justiça será necessário fazer convergir esforços no sentido da mudança, promovendo, nomeadamente, a formação dos magistrados e a adequação das tecnologias ao universo judicial.

08 maio 2007

Poder, discurso e performatividade...

A linguagem é mais um instrumento de acção e poder, do que um meio de dizer o mundo.

O que faz o poder das palavras, o poder de manter a ordem ou a subverter é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as prenuncia. Crença cuja produção não é da competência das palavras.

...para que o discurso seja legítimo, deve ser pronunciado pela pessoa legitimada para o pronunciar, o detentor do "skeptron", conhecido e reconhecido como habilitado e preparado para produzir essa classe particular do discurso. Deve ser pronunciado numa situação legítima, isto é, perante receptores legítimos. Deve enfim, ser enunciado nas formas legítimas.

Pierre Bourdieu