06 junho 2008

O frenesim em torno da Selecção

O ALARIDO EM TORNO DA SELECÇÃO nacional de futebol chega a ser indecoroso. No último domingo, então, o caso foi ameaçador: as três principais estações de televisão consagraram horas e horas à viagem dos futebolistas entre Viseu e Neuchâtel.
.. Gilberto Madaíl, esse homem fatal, sempre insaciado de banalidades, assertoou uma série de dislates, com o ar grave de quem vai influir nos destinos da Pátria. Scolari, místico, iluminado por todas as Imaculadas, às quais costuma rezar com transporte e fervor, declarou a sua eterna gratidão a um povo tão ligado àquele grupo de "heróis", e tão estremecido quando a Bandeira é içada e A Portuguesa entoada com as estrofes trocadas.

Alienação muito bem montada e insuportavelmente apoiada pelas televisões, pelas rádios e pelos jornais. Esta ambição do aparato impede a mais módica posição crítica daqueles que, apreciando o jogo (o meu caso), não entram na peripécia irracional e não se intimidam com a algazarra. Acaso haveria razão para a euforia, se a selecção tivesse chegado ao fim do Euro como ganhadora.

Conhecemos, através das televisões, um povo verdadeiramente feliz, gritando, apopléctico, a responsabilidade cumprida de cidadania e civilidade. Um povo enérgico, expondo, como elevado título, a radiosa coragem de estar no desemprego, de ser imigrante por carência absoluta de trabalho e de esperança no País onde nasceu - e que cauciona, com júbilo, a desgraça como virtude.

[Baptista Bastos no Sorumbático]

Sem discordar em nada do excerto supracitado, todavia é-nos possível ver este acontecimento com determinados pontos positivos. Senão vejamos:
- Este envolvimento em torno da Selecção é um momento de catarse social: os indivíduos transformam-se, "são outros"e, ao mesmo tempo, há todo um aliviar de tensões e frustações acumuladas.
- Este aliviar de tensões funciona, não raro, como uma terapia social em que os indivíduos se "curam" dos problemas do diário quotidiano. São rituais/momentos, como diria Georges Balandier, em que a estrutura rígida de organização de papéis é virada ao contrário. É uma "válvula de escape", uma catarse para os conflitos subterrâneos e explosivos que nos fremetam.
- Tudo isto faz com que se crie uma efervescência social espantável, propiciando uma coesão social magnífica em que todos estão envoltos na Selecção, em que a força e união de todos por um objectivo comum é o orgulho do país!

Força Portugal!

2 comentários:

Anónimo disse...

Só espero que a selecção portuguesa venha o mais depressa possível para casa. Este ruído - já não se lhe pode chamar outra coisa - à sua volta já é ensurdecedor. E mau para o país!

Carlos Medina Ribeiro disse...

Muito grato pela referência à crónica e ao blogue.

Felicidades
e um
Abraço

CMR